Abandonado, isto aqui. Deu vontade de escrever. É só ler o post anterior pra saber que minha vida estava em segundo plano há tempos. E isso, claro, incomoda. Aconteceram coisas boas, mudanças boas, mas pouca coisa digamos… prazerosa. Bem, teve a Copa. Eu realmente curto estes eventos esportivos. Brasil perdeu? Foda-se! Assisti a dois dos jogos do Brasil, inclusive o fatídico, desenvolvendo uma API para validar streaming usando metadados com expressões regulares. Sou um nerd clássico, lembram-se?
A Copa, de legal, teve também a aquisição da minha querida TV de 7” pra ver jogo no trabalho. Copa, porra. A cada quatro anos tenho o direito de trabalhar menos durante os jogos. Mas não é esse o assunto principal.
Elas surgiram na minha vida bem cedo. Aos seis anos, acho. Todo menino, uma hora, se apaixona por uma. O corpo esguio, esbelto, sempre – sem exceções – convida a molecada. A mídia explora desde cedo esta… fraqueza que possuímos. Vendem a idéia do mundo perfeito com uma delas. E, raro caso, estão certos.
A primeira não era lá grande coisa, mas era a minha primeira. Diferenciada das outras, fazia o que somente as desta década assumiram de vez. Era pequena, de uma flexibilidade difícil de acreditar. Durou até muito. Fiquei dois anos com ela. Mesmo com outras, ainda a reencontrava quando ia na casa da minha avó. Mas era uma coisa fria. Já tinha experimentado e estava com outra melhor. Sempre.
A segunda ficou pouco tempo comigo. Quem deu a notícia foi meu irmão. Ela havia ido embora. Não sei bem como ou porque. Sei que chorei muito. Era o que mais precioso eu possuía, e ela se foi. Sem aviso. Simplesmente a levaram de mim. Eu acho. Outra veio em seguida. Mesmo contra a vontade do meu pai, que não concordou com a minha escolha. Ele achava outra melhor. E era, mesmo. Mas eu, não. Gostei dela. E com ela fiquei até nos acidentarmos e ela não sobreviver. Estranho. Não doeu tanto.
Veio a década de 90. Houve uma mudança bem significativa, nelas. Estavam mais bonitas, ousadas, topando o que as antigas sequer cogitavam ou, quando o faziam, saíam bastante maculadas da experiência. Lembro que um amigo foi o primeiro a conseguir uma dessas. Linda. Parecia vir de outro país. Linda. Veio a vontade de ter uma. E ela veio.
A minha chegou pouco antes do Natal. Era mais modesta que a do meu amigo. Ela entrou na sala. Ainda incompleta, desmontada. Naquela época, nós mesmos as montávamos. Era fácil. Montar a mesa, o aro dianteiro, regular freios e câmbios. Uma legítima Caloi Aspen Way laranja. De aço carbono, peças da linha de entrada, aros de aço, pesada, muito pesada. Mas era a minha bike, o meu sonho. Eu podia voltar às trilhas que as BMX encaravam com medo, desconfortáveis – não eram feitas para isso.
Nessa época, eu vivia em cima da bike. Era meu meio de transporte, meu lazer, meu prazer constante. Trilhas no final de semana eram parte do calendário fixo. Não havia necessidade de marcarmos. Era sempre a concentração na casa do Rodrigo e, aí, a gente decidia qual trilha ia encarar. Cava, Cotia, Mangels, Pedra Preta. Porra, que saudades.
Eu consigo reviver a sensação de pedalar numa trilha. De forma branda, como são as emoções relembradas. E isso me fez pensar. Ficar sem aquela bike era uma tortura. Às vezes íamos ao sítio do Rodrigo e voltávamos de carro. As bikes ficavam lá, ou pra voltarem no dia seguinte com o pai dele, ou pra buscarmos, voltando pro sítio de carro. Eu me sentia incompleto sem ela. Quando a reencontrava, era como devolver ao meu corpo uma parte que estava faltando.
Não me lembro da última trilha que fizemos. Mas, ao me mudar de cidade pra estudar, ela ficou. Meus interesses mudaram, o preparo físico foi embora. A vontade de pedalar, nas férias ou feriados, até que reaparecia. Mas não tinha mais companhia. Eu e os amigos queríamos somente as festas desta fase da vida. E ela ficou parada um longo tempo.
Muito tempo depois – talvez 10 anos? – eu a trouxe de volta à vida. Mas não estava boa. A realidade não fazia jus às lembranças. O peso, a falha das peças baratas, não podiam mais ser perdoados. Pequenos macetes automatizados pela convivência do dia-a-dia, que me permitiam usufruir dela de forma plena, não existiam mais, e as faltas ficaram escancaradas. Ali enterrei, talvez para sempre, a nossa relação.
Voltei a Brasília disposto a comprar outra e retomar o pedal. Pequei na abordagem. Estava com pouca grana, não sabia se ia voltar firme às trilhas. Comprei uma Caloi Aluminum que, naqueles dias, nada lembrava as primeiras dessa linha, que rivalizavam com as melhores marcas gringas. Era uma bike bem limitada. Melhor que a minha Aspen, é verdade, mas isso não era mérito. Ensaiei um retorno pedalando com amigos. Cheguei a começar um arremedo de programa de condicionamento com um amigo. Estava entrando em forma, o preparo físico começava a voltar. A velha lesão no joelho incomodava mais, tanto pela falta de condicionamento quanto pelo peso extra acumulado com os anos. Mas estava indo bem. Até que fui sacaneado na minha pós-graduação. Tive que parar tudo para fazer em 2 meses o trabalho de 6 meses. Sozinho. Foi foda. Parei e não retomei o pedal.
Há quase dois anos voltei a trabalhar com um amigo que é um entusiasta de XC. Ele sabe que, um dia, eu fui assim. E vivia me enchendo o saco pra comprar uma bike ou mesmo tirar a poeira da minha velha Aluminum pra voltar a pedalar. Mas, se eu voltasse, queria voltar pra valer. A Aluminum não é confiável para trilhas, ainda mais com o meu peso. Nunca topei os convites.
Sábado passado resolvi ir com esse amigo à loja em que ele havia comprado sua atual bike. Cheguei antes. Conversei com o pessoal de lá, todos muito gente fina. E… me apaixonei de novo. Relutante, no início. Porra, estou sem grana, a compra do apartamento foi o maior rombo financeiro que sofri na vida. E, droga, fui convencido a testar a bike. Estranhei. Achei o quadro curto. O dono da loja discordou, tirou minhas medidas e regulou a bike pro meu tamanho. E, maldito seja, testei a bike de novo. Sabem qual foi a sensação? De que devolvi ao meu corpo uma parte que faltava há muito tempo. Eu estava completo novamente. Eu e – agora – minha modesta – mas nem tanto – Cannondale F7. Estou voltando, XC. Pra sempre. Eu prometo.